Marte é o planeta vermelho, o deus romano da guerra, o símbolo da agressividade e do conflito. Na astrologia popular, ele é a força que briga, que corta e que fere. E o Talmud, surpreendentemente, não suaviza nada: diz que quem nasce sob Marte tende a derramar sangue.
Mas a frase seguinte do Talmud é uma das lições mais transformadoras de toda a tradição judaica. Porque derramar sangue pode significar ser um criminoso, mas também pode significar ser um cirurgião, um abatedor ritual ou o mohel que introduz um bebê na aliança de Abraão. A mesma força, quatro destinos.
Neste artigo você vai conhecer Marte na Cabala Hebraica a partir das fontes judaicas: o seu nome hebraico, a sua letra no Sefer Yetzirá, o ensinamento do Talmud, a sua ressonância com a Sefirá de Guevurá e, acima de tudo, como canalizar a energia marciana para a coragem, a justiça e a santidade.
Se ainda não leu a visão geral, comece pelo nosso guia dos 7 planetas na Cabala Hebraica.
Maadim: o vermelho
Em hebraico, Marte é Maadim (מאדים), palavra que vem de adom, “vermelho”. Qualquer pessoa que olhe para o céu numa noite limpa percebe por quê: entre os planetas visíveis, Marte se destaca pela cor avermelhada, a cor da ferrugem, do fogo e do sangue.
A mesma raiz atravessa a Torá em palavras carregadas de significado:
- adam, o ser humano, formado da adamá, a terra avermelhada;
- dam, sangue;
- Edom, o nome dado a Esaú, que nasceu “ruivo” (Gênesis 25:25) e vendeu a primogenitura por um guisado “vermelho” (Gênesis 25:30).
O vermelho, na tradição, é a cor da vida intensa, do sangue que corre nas veias, mas também do sangue derramado. É a cor do din, o rigor e o julgamento.
Na ordem tradicional dos planetas, ShaTZaM ChaNKaL, Maadim é o terceiro, depois de Saturno e Júpiter. E quando se aplica o ciclo das horas planetárias aos dias da semana, a terça-feira começa sob Marte.
Marte no Sefer Yetzirá
O Sefer Yetzirá ensina que as sete letras duplas do alfabeto hebraico formaram os sete planetas, os sete dias da semana e as sete portas do rosto humano. Cada uma delas tem dois sons, um forte e um suave, e governa um par de opostos.
Na maioria das versões do texto, incluindo a curta, a longa e a de Saadia Gaon, Marte é formado pela letra Dálet (ד). Na versão do Gaon de Vilna, ele corresponde à letra Guímel (ג).
O Dálet é a letra da délet, a porta, e também de dal, o pobre, o que está em necessidade. Marte, como força de ataque e defesa, é exatamente uma porta: pode ser a porta que se arromba ou a porta que se defende. E pode ser a força que oprime o fraco ou a que o protege.
Na leitura do Gaon de Vilna, o Guímel, a letra de guevurá, força, e de guemul, retribuição, também se ajusta bem a Marte. A força que retribui pode ser vingança ou justiça.
O que o Talmud diz sobre quem nasce sob Marte
O ensinamento clássico está no tratado Shabat, página 156a. Sobre quem nasce na hora de Marte, o Talmud afirma que essa pessoa tende a ser shofech damim, alguém que derrama sangue.
Mas o sábio Rav Ashi esclarece imediatamente o que isso significa. Essa pessoa pode se tornar:
- um umaná, o cirurgião da época, que fazia sangrias para curar;
- um ladrão violento;
- um shochet, o abatedor que prepara a carne de acordo com a lei judaica;
- um mohel, que realiza a brit milá, a circuncisão.
Essa é uma das passagens mais importantes de toda a discussão rabínica sobre os planetas. Ela mostra, com exemplos concretos, que o mazal define a matéria-prima do caráter, mas não o seu uso. A pessoa nascida sob Marte não escolhe ter uma relação intensa com o sangue. Mas escolhe se vai usá-la para matar ou para curar, para roubar ou para cumprir uma mitsvá.
Rabá e o mazal de Marte
O Talmud acrescenta um diálogo revelador. O grande sábio Rabá diz: “Eu nasci sob Marte”. E seu colega Abaye responde: “Também o mestre pune e mata.”
Rabá era juiz. Como líder da comunidade, aplicava sanções e penas. A força de Marte, nele, não se manifestou como violência, mas como autoridade para fazer justiça. O mesmo fogo, canalizado para o tribunal.
Davi, o ruivo: a lição do Midrash
O Midrash conta uma história que ilumina perfeitamente a força de Marte. Quando o profeta Samuel foi ungir um dos filhos de Ishai como rei, viu que Davi era admoni, ruivo, avermelhado (1 Samuel 16:12). Samuel se assustou: pensou que aquele jovem seria um derramador de sangue, como Esaú.
Segundo o Midrash (Bereshit Rabá 63:8), Deus lhe respondeu que Davi era também “de olhos belos”. Esaú matava por vontade própria. Davi só tiraria vidas com a aprovação do Sanhedrin, o tribunal, e em guerras justas.
A lição é clara: a cor é a mesma, a força é a mesma, mas os olhos fazem a diferença. Davi carregava o fogo de Marte, mas o subordinou à Torá e à justiça. Por isso se tornou o rei de Israel e o autor dos Salmos.
Marte na Árvore da Vida: Guevurá
Entre todas as correspondências entre planetas e Sefirot, a de Marte com Guevurá é uma das mais naturais. Guevurá é a força, o rigor, o din, o julgamento. Na Árvore da Vida, ela fica no lado esquerdo, o lado do vermelho e do fogo, e é a Sefirá de Isaac, que se deixou atar no altar.
É importante lembrar que essa não é uma equação escrita nas fontes clássicas. O Sefer Yetzirá, em suas diferentes versões, distribui as letras e os planetas de modos distintos. Mas a ressonância é profunda: tudo o que o Talmud diz sobre Marte, o sangue, o julgamento e a punição, pertence ao universo de Guevurá.
Guevurá não é má. Sem ela, a bondade de Chessed se derramaria sem forma. É Guevurá que diz “não”, que protege, que estabelece fronteiras. A Cabala ensina que o mundo não poderia existir só com bondade, nem só com rigor. Ele precisa do equilíbrio de Tiferet.
Marte, então, é a força que todos precisamos ter, desde que não governe sozinha.
Isaac e os poços
A Torá mostra a Guevurá de Isaac de um jeito que surpreende quem espera um guerreiro. Isaac não conquista cidades. Ele cava poços (Gênesis 26). Os filisteus entupiam os poços que o seu pai Abraão tinha aberto, e Isaac voltava a cavá-los. Disputavam com ele os poços novos, e ele seguia adiante e cavava outro, até encontrar um lugar onde ninguém brigou. Chamou-o de Rechovot, “espaços amplos”.
Essa é a força marciana na sua forma mais madura: não a explosão que destrói, mas a persistência que não desiste, a firmeza que cava fundo até encontrar água viva.
“Porque o sangue é a vida”: o respeito judaico pelo sangue
Se Marte é o planeta do sangue, vale a pena entender como a Torá trata o sangue. E aqui a tradição judaica revela algo que muda a forma de ver a força marciana.
A Torá proíbe comer sangue de forma enfática e repetida, e explica o motivo: “porque o sangue é a vida” (Deuteronômio 12:23). O sangue não é apenas um líquido do corpo. É o portador da vida, e a vida pertence a Deus. Por isso, mesmo quando a Torá permite comer carne, ela exige que o sangue seja retirado e devolvido à terra, coberto com respeito.
Todo o sistema da shechitá, o abate ritual, nasce daí. O shochet precisa estudar por anos, conhecer as leis em detalhe e usar uma faca perfeitamente afiada, sem nenhuma imperfeição, para que o animal não sofra. Depois, a carne passa pela melichá, a salga, que retira o sangue. A mesma relação intensa com o sangue que o Talmud atribui a quem nasce sob Marte é colocada dentro de um sistema de limites, compaixão e santidade.
O mesmo vale para a brit milá. O mohel derrama uma gota de sangue, mas esse sangue é o sinal de uma aliança, não de uma violência. A tradição o chama de dam brit, “sangue da aliança”.
A diferença entre força e violência
Essa visão ilumina a lição do Talmud. A força de Marte não é eliminada nem negada. Ela é cercada de sentido. O sangue que o assassino derrama tira uma vida que não lhe pertence. O sangue que o mohel derrama sela uma aliança com o Criador. O gesto físico pode até parecer parecido, mas o que o envolve é completamente diferente.
A Torá ensina, desde a história de Noé, que quem derrama o sangue do ser humano responde por isso, “porque à imagem de Deus o homem foi feito” (Gênesis 9:6). O respeito pelo sangue é, no fundo, respeito pela imagem divina em cada pessoa.
Quem nasce com a intensidade de Marte recebe, portanto, uma responsabilidade maior. Precisa saber, mais do que os outros, que a força só é sagrada quando reconhece a vida que tem diante de si.
O verdadeiro herói, segundo a Ética dos Pais
A Ética dos Pais faz uma pergunta que parece escrita para Marte: “Quem é o herói?”. E responde: “Aquele que domina o seu impulso” (Pirkê Avot 4:1).
A palavra para herói é guibor, da mesma raiz de Guevurá. A tradição judaica redefine a força. O verdadeiro guerreiro não é o que vence os outros, mas o que vence a si mesmo. O fogo de Marte, voltado para fora sem controle, destrói. Voltado para dentro, como domínio próprio, é a maior das forças.
A sombra de Marte
A energia marciana, quando não é trabalhada, se manifesta de formas que todos conhecemos:
- Raiva: explosões, gritos, palavras que ferem.
- Impulsividade: agir antes de pensar.
- Violência: física, verbal ou emocional.
- Competitividade destrutiva: a necessidade de vencer a qualquer custo.
- Crueldade: a dureza que não enxerga o outro.
A tradição judaica é severa com a raiva. O Talmud (Shabat 105b) compara quem rasga as roupas num acesso de cólera a quem serve à idolatria, porque a raiva faz a pessoa esquecer Deus. E o Rambam, nas Leis dos Traços de Caráter (2:3), ensina que, embora na maioria das qualidades se deva buscar o meio-termo, com a raiva a pessoa deve se afastar até o extremo oposto.
O tikun de Marte: canalizar o fogo
Transformar a força em mitsvá
O exemplo do Talmud é o modelo: o mesmo impulso que poderia gerar um ladrão gera um mohel. Pergunte-se: onde posso usar a minha intensidade a serviço do bem? Defender alguém que é injustiçado, enfrentar uma causa difícil, trabalhar numa área que exige coragem, como a medicina, a segurança ou o direito.
A competição que gera sabedoria
O Talmud (Bava Batra 21a) ensina: kin’at sofrim tarbê chochmá, “a rivalidade entre os sábios aumenta a sabedoria”. A competitividade de Marte não precisa ser eliminada. Pode ser dirigida para o estudo, para o crescimento, para a excelência.
Pausar antes de reagir
O fogo de Marte é rápido. O tikun mais simples e mais difícil é criar um intervalo entre o impulso e a ação. Respirar, contar, sair do ambiente, esperar até o dia seguinte para responder a uma mensagem. A força continua lá, mas agora obedece.
Coragem para o bem
Marte também é o planeta da coragem. Há momentos em que a tradição exige firmeza: dizer a verdade, defender os fracos, enfrentar a injustiça. A Torá ordena: “não fique parado diante do sangue do teu próximo” (Levítico 19:16). A pessoa marciana tem uma vocação especial para essa coragem.
Terça-feira: o paradoxo do dia de Marte
Na ordem das horas planetárias, a terça-feira começa sob Marte. E aqui a tradição judaica guarda um paradoxo encantador.
No relato da Criação, o terceiro dia, que corresponde à terça-feira, é o único em que Deus diz duas vezes “e viu que era bom” (Gênesis 1:10 e 1:12). Por isso existe um costume antigo de realizar casamentos e iniciar novos projetos na terça-feira, o dia do “duplo bom”.
O dia que começa sob o planeta do sangue e da guerra é, para o povo judeu, o dia da dupla bênção. Talvez não haja imagem mais perfeita do tikun de Marte: o fogo que poderia destruir se torna a energia que constrói e celebra.
Práticas inspiradas em Marte
- Faça exercício físico. A energia marciana precisa de saída. Esporte, caminhada intensa ou trabalho manual ajudam a descarregar a tensão de forma saudável.
- Crie a regra do intervalo. Decida que, sempre que sentir raiva, vai esperar pelo menos dez minutos antes de falar ou escrever.
- Defenda alguém nesta semana. Use a sua coragem para proteger uma pessoa vulnerável: um colega tratado injustamente, um idoso, uma criança.
- Estude as leis da fala. A raiva se expressa principalmente pelas palavras. Estudar as leis do lashon hará, a fala negativa, é uma forma concreta de domar o fogo.
- Comece algo na terça-feira. Use a energia do “duplo bom” para iniciar um projeto que exija coragem.
Mitos sobre Marte que a tradição não confirma
“Quem nasce sob Marte vai ser violento”
O Talmud diz o contrário: a pessoa terá uma relação intensa com o sangue, mas pode se tornar cirurgião, abatedor ritual ou mohel. A tendência não define a escolha.
“Marte é o planeta do mal”
Nenhum planeta é mau em si. A força de Marte é a mesma de Guevurá, necessária para que o mundo tenha limites, justiça e proteção.
“Na Cabala, a raiva deve ser reprimida”
A tradição não pede que a força de Marte seja eliminada, mas que seja canalizada. A raiva destrutiva deve ser evitada ao extremo, mas a energia por trás dela pode se tornar coragem, zelo e excelência.
Perguntas frequentes
Qual é o nome de Marte em hebraico?
Maadim (מאדים), da raiz de adom, “vermelho”. É o terceiro planeta da ordem tradicional ShaTZaM ChaNKaL.
Qual letra hebraica corresponde a Marte?
Na maioria das versões do Sefer Yetzirá, a letra Dálet (ד). Na versão do Gaon de Vilna, a letra Guímel (ג).
O que o Talmud diz sobre quem nasce sob Marte?
Que essa pessoa tende a derramar sangue, mas, segundo Rav Ashi, isso pode significar ser cirurgião, ladrão, abatedor ritual ou mohel (Shabat 156a). A escolha é da pessoa.
Qual Sefirá corresponde a Marte?
A ressonância mais natural é com Guevurá, a força e o rigor. Não é uma equação fixa das fontes clássicas, mas uma ligação temática profunda.
Por que a terça-feira é considerada um dia bom para casamentos?
Porque no relato da Criação o terceiro dia é o único em que Deus diz duas vezes “e viu que era bom”. O dia que começa sob Marte se torna o dia da dupla bênção.
Conclusão: o fogo que cura
Marte é o planeta que mais assusta e, talvez, o que mais ensina. Ele mostra que a força não é boa nem má em si mesma. O que a define é a direção.
O Talmud deu ao mundo uma imagem inesquecível: a mesma mão que poderia derramar sangue com violência pode fazer uma brit milá, abater um animal segundo a Torá ou salvar uma vida numa cirurgia. Davi era ruivo como Esaú, mas tinha olhos belos. Rabá nasceu sob Marte e se tornou juiz.
Depois de Marte, o planeta do fogo e da força, siga para o centro da Árvore: o Sol, a luz que doa. Ou volte ao guia completo dos 7 planetas na Cabala.